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Mulheres descobrem a cachaça

A mais brasileira de todas as bebidas vem agradando em cheio ao paladar feminino. De olho nas mulheres, alambiques estão se refinando e caprichando nas fórmulas e segredos para criar uma aguardente mais sofisticada, macia e saborosa

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Nayara Menezes Publicação:20/03/2013 14:34Atualização:20/03/2013 14:45
Para a turismóloga Izabela Hissa, cachaça é como roupa: 'Cada uma para uma ocasião' (Eugênio Gurgel)
Para a turismóloga Izabela Hissa, cachaça é como roupa: "Cada uma para uma ocasião"

Se antes a cachaça era rotulada como bebida popular e destinada apenas aos fortes, hoje ela ganhou status e glamour. A branquinha – também conhecida como pinga, caninha, “marvada” e mais um sem-número de denominações – vem passando por uma grande transformação nos últimos anos. Alambiques e cachaçarias estão se refinando e caprichando nas fórmulas e segredos para criar uma bebida cada vez mais sofisticada, macia e saborosa. Como consequência, a cachaça mudou – e o público também. Além de ter apreciadores de todos os tipos e classes sociais, a famosa caninha conquistou um público muito especial: as mulheres. Donas de um paladar único, exigente e sensível, elas se encantam com a bebida antes renegada.  

A artista plástica Juliana Melillo, de 38 anos, é uma das apreciadoras. “Não tem bebida melhor. Nada como degustar e saborear uma boa cachaça”, diz ela, que está sempre buscando rótulos diferentes. “Gosto de provar e descobrir novas marcas”, afirma. A artista garante que em sua casa não falta a bebida: “Gosto de receber amigos. Sempre que o pessoal chega a minha casa encontra uma boa cachaça.” Outra fiel admiradora é a gerente de compras Daniela Martins, de 32 anos. “Para começar a noite, nada melhor que uma dose de uma boa cachaça”, diz.

De olho nesse mercado, produtores criam fórmulas voltadas especialmente para o público feminino, como é o caso da cachaçaria Regis Armmont, em Brumadinho, na Região Metropolitana de BH. Para atender à demanda, a destilaria criou a Domina Suave (Gentil Senhora, na tradução do latim), a primeira cachaça feminina do Brasil. “Em feiras e eventos da bebida, as mulheres perguntavam se não seria possível fazer uma cachaça mais suave”, explica Glener Arruda de Barros, sócio-proprietário do alambique. O pedido foi atendido. Feita artesanalmente, a Domina é envelhecida em barril de jatobá, o que lhe confere sabor mais adocicado e suave. Ela possui teor alcoólico de 40%, pouco abaixo da média de uma cachaça comum – que varia entre 45% e 48%. O resultado foi tão positivo que a marca alavancou as vendas da empresa e ganhou até prêmio em concurso nacional.

Miriam Cerutti, empresária e apreciadora: 'As mulheres não só gostam, como também entendem de cachaça' (Eugênio Gurgel)
Miriam Cerutti, empresária e apreciadora: "As mulheres não só gostam, como também entendem de cachaça"

A garantia é da bartender Meire Leandro, especialista na aguardente: 'Elas estão trocando outros destilados pela cachaça' (Eugênio Gurgel)
A garantia é da bartender Meire Leandro, especialista na aguardente: "Elas estão trocando outros destilados pela cachaça"

Raquel e Wilma Salim, paixão que vem de família: mãe e filha degustam juntas uma boa cachacinha (Samuel Gê)
Raquel e Wilma Salim, paixão que vem de família: mãe e filha degustam juntas uma boa cachacinha


A Fazenda Pontal, localizada em Pirapora, no Norte de Minas, também investiu na criação de um produto voltado exclusivamente para o público feminino. “Desde que começamos a produção, eu tinha o sonho de criar uma cachaça com a qual pudesse presentear minhas amigas”, diz Alessandra Duarte, dona do alambique. Foi quando veio a ideia de criar a Pontal Cherry, cachaça feminina. Armazenada em  barril de umburana, com teor alcoólico de 39% e rótulo cor-de-rosa, a tentativa não só deu certo como virou o carro-chefe da empresa. “Hoje, a Cherry é uma das nossas cachaças mais bem aceitas no mercado”, garante Alessandra: “É uma cachaça feita por mulher e para a mulher”.

Uma branquinha que é também bastante apreciada pelas mulheres é a Minha Deusa, da Vale Verde. Criada para homenagear uma mulher, a dona Teresa Gonçalves, mulher do produtor Luiz Otávio Possas Gonçalves, a cachaça tem 40% de teor alcoólico e leva rótulo feminino, cor-de-rosa. “Apesar de não ser bebida apenas pelas mulheres, elas acabam se identificando com o produto pelo rótulo cor de rosa, que tem uma orquídea desenhada”, diz a gerente de marketing Jacqueline Pereira. Segundo ela, as mulheres representam boa parte dos clientes. “Nos eventos e na própria Vale Verde, elas estão cada dia mais presentes”, afirma.

Apesar de não existirem estatísticas oficiais sobre o número de mulheres que consomem a bebida, quem trabalha no ramo garante que elas já são importante fatia desse mercado. Segundo o presidente da Associação Mineira dos Produtores de Cachaça de Qualidade (Ampaq), Trajano Raul Ladeira de Lima, é notória a presença feminina em feiras e eventos do setor. “Elas pedem para degustar, gostam e sempre levam uma cachaça para casa”, conta. No Clube Mineiro da Cachaça, no bairro Santa Tereza, não é raro encontrar mulheres degustando uma branquinha. “Em relação aos homens, as mulheres bebem de igual para igual”, diz o dono do clube, Adair Mazzinghy.

Júnia Melillo, artista plástica: 'Não tem bebida melhor. Sempre que alguém chega a minha casa encontra uma ótima cachaça' (Samuel Gê)
Júnia Melillo, artista plástica: "Não tem bebida melhor. Sempre que alguém chega a minha casa encontra uma ótima cachaça"


Meire Leandro, de 37 anos, é especialista em drinques com cachaça. Ela diz que as mulheres descobriram a bebida: “Nas festas, elas pedem muitos coquetéis com cachaça. Muitas preferem a cachaça a outros destilados.” Apreciadora e defensora da bebida, Meire afirma que ela tem inúmeras vantagens. “É o único destilado que aceita a mistura com outros ingredientes (até outras bebidas) e não provoca ressaca no dia seguinte”, diz. Para Cida Zurlo, dona da Milagre de Minas, produzida em Amarantina, distrito de Ouro Preto, as mulheres estão conquistando cada vez mais espaço no ramo. “Como em outros setores, as mulheres já entraram para o mundo da cachaça, como produtoras e consumidoras”, destaca.


Na casa de dona Wilma Salim, de 71 anos, quem herdou o gosto pela branquinha foi a filha, a nutricionista Raquel Salim, de 31 anos. “Adoramos degustar juntas uma boa cachaça”, conta Raquel. Ela prefere as versões femininas da bebida, pois “são mais suaves”. Mas Raquel faz questão de ressaltar que a preferência pelas fórmulas mais leves não é coisa de “mulherzinha”. “Meu pai também adora uma cachaça suave. Ela desce mais macia”, explica.

O avanço feminino não se resume ao hábito de pedir e beber. Há mulheres que entendem tanto do assunto que levaram a branquinha para os livros. Miriam Cerrutti, produtora da cachaça Maria Boa, é autora dos livros Coquetéis com Cachaça e Delícias Brasileiras com Cachaça. “Pura, em um drinque ou em uma receita culinária. De qualquer jeito, a cachaça tem um sabor especial”, diz a empresária. Segundo ela, as mulheres já representam 50% do mercado consumidor de cachaça em Minas. “Elas não só gostam, como também entendem do assunto.”

Quem também não dispensa uma boa cachaça é a turismóloga Izabele Hissa, de 34 anos.  Para ela, bebida é como roupa. “Cada uma para uma ocasião.” Numa balada, ela prefere vodca. Já no boteco, ou em casa, ela se rende à branquinha. “Não há nada melhor que preparar um prato degustando uma boa pinga”, afirma.

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