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01/AGO/2014

Estudo indica que uso de antibióticos contra quadros alérgicos pode piorar o problema e gerar outros tipos de reações

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Elian Guimarães Publicação:07/07/2013 08:57Atualização:08/07/2013 09:08

 (Arte / VALF)

A alergia, causada por diferentes fatores, atinge 35% da população do planeta, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, dependendo da estação do ano, das condições climáticas e da presença de agentes causadores dos processos alérgicos (insetos, poluição, agentes químicos), o índice pode ser ainda maior, de acordo com estudo da cientista indiana Shilpa Shah, conselheira científica do projeto social Brasil sem Alergia, que tem como objetivo a prevenção de doenças de fundo alérgico e o treinamento de médicos em municípios do interior do país.

O tratamento inadequado ou sem acompanhamento médico pode agravar a situação do paciente e levá-lo a um quadro infeccioso grave. De acordo com o professor de doenças infecciosas parasitárias da Faculdade de Ciências Médicas e do Ambulatório de Infectologia do Hospital Militar de Minas Gerais Luiz Wellington Pinto, para tratar processos alérgicos normalmente é feito primeiramente um diagnóstico do que está levando o indivíduo a se tornar alérgica adquirir a alergia: “É uma patologia muito comum e que em alguns casos leva a manifestações clínicas importantes, como a rinite alérgica, um corrimento nasal causado por poeira, tinta fresca, entre outros fatores”. Nesses casos o tratamento mais indicado é feito com medicação especificamente para diminuir a secreção nasal usando constritores nasais ou antialérgicos.

Em outros tipos de alergia, como as que acometem a pele ou do sistema respiratório, o paciente precisa afastar do seu cotidiano materiais alérgenos, como tapetes, cortinas, materiais que acumulem poeira ou cheiro forte. Nesse primeiro teste procura-se detectar quais são os fatores alérgenos que causam reação na pessoa. Geralmente, o teste implica em aplicar uma microdosagem do alérgeno na pele (nas costas é o mais comum) e a pessoa fica com aquele material por um ou dois dias. Retorna ao médico, que vai poder avaliar onde houve uma pequena reação ou não. A partir daí, pode-se elaborar uma vacina seriada para que o paciente possa usar tendo um menor estímulo do fator alérgico e diminuindo o tempo e aumentando o espaço entre as crises.

Para problemas respiratórios alérgicos e redução de tosse e secreção são indicados remédios específicos. O antibiótico, segundo o infectologista, não é usado para tratamento de processos alérgicos. Mas no caso da alergia grave que leva a um quadro infeccioso eles (antibióticos) podem ser usados, mas também podem causar reações e levar a doenças graves, como a síndrome de Stiven Johnson, um quadro semelhante à queimadura em que o paciente praticamente perde a pele. Ela pode ser causada também por anticonvulsivos ou outros medicamentos: “Por isso a importância de não se automedicar”, alerta Luiz Wellington.

Um estudo publicado no Global Journal of Medicine and Public Health, desenvolvido no Mumbai City Hospital, na Índi0)a, mostrou que o uso de antibióticos em casos alérgicos pode propiciar o aparecimento de outras intolerâncias nos pacientes ou até agravar os sintomas de uma crise. “Os antibióticos podem sensibilizar o sistema imunológico das pessoas, o que as torna bem mais suscetíveis ao surgimento de quadros de alergias”, afirma a cientista Shilpa Shah, principal autora da pesquisa. O estudo foi desenvolvido durante dois anos com 200 pacientes divididos em dois grupos: um grupo com 126 pacientes, que fez uso de medicamento antibiótico e o outro formado por 74 pessoas, não submetidas ao remédio. “A pesquisa identificou um crescimento dos níveis de IgE, em exame que determina a presença de algum tipo de alergia, entre os pacientes do “grupo de antibióticos” em relação aos 74 do grupo ‘não antibióticos’”, explica Shilpa.

A resposta alérgica é individualizada, e cada país tem suas particularidades, explica o médico Marcello Bossois, coordenador técnico do projeto social Brasil sem Alergia. As variações de temperatura aumentam essa incidência: “Na Sibéria, por exemplo ou no Norte do Canadá, onde a temperatura é sempre baixa, há menor ocorrência de doenças respiratórias. Já no Brasil, principalmente nas regiões Sudeste e Sul, onde há grande variação entre temperaturas baixa e alta, a situação é péssima para quem tem tendência a problemas respiratórios”. A alergia de pele, por sua vez, tem maior incidência em regiões industrializadas, nos grandes centros, onde é intenso o uso de produtos químicos, explica o médico.

CONTROLE NÃO É SIMPLES E há graus variados de reação. Bossois explica que a orientação para o tratamento dos quadros de alergia não é simples, consistindo num tripé terapêutico baseado no controle alimentar, controle de ambiente e uso de imunoterapia, com vacinas ou medicamentos. Mas reconhece que não é raro o uso de antibióticos prescritos em casos específicos, sobretudo em momentos de crises alérgicas. Bossois reconhece que alguns fatores justificam o uso de antibiótico por quem sofre os incômodos da alergia: “Como a mucosa do alérgico está sempre inflamada e é rica em proteínas carregadoras – denominadas I-cam e V-cam, levando micro-organismo do paciente), frequentemente ele está doente e com problema respiratório, o que leva ao uso de antibióticos para tratar as consequências da alergia”.

Há outros fatores que implicam no uso de antibiótico: o alérgico produz muco em excesso, sendo fonte de cultura e proliferação de bactérias, gerando infecções respiratórias bacterianas (alguns tipos de pneumonia, faringite, sinusite, entre outras). Outro ponto é o desequilíbrio do sistema imunológico do alérgico, que faz com que ele enfrente diferentes episódios de problemas com a imunidade, encontrando, segundo Bossoi, uma aparente solução através dos antibióticos.
O médico sugere que seja prescrito o uso do medicamento em determinados casos mais graves, mas adverte que isso jamais ocorra sem um acompanhamento clínico criterioso: “Se por um lado o antibiótico tem um papel imprescindível para retirar pacientes de crises, por outro ele poderá agravar alguns sintomas da alergia, gerando uma reincidência do problema”. A reação alérgica a antibiótico não tem prevenção, segundo o infectologista Luiz Wellington Pinto e a reação aparece assim que o paciente entra em contato com a droga. Por essa razão, ele sugere que o paciente porte um cartão indicando quais os medicamentos e substâncias aos quais é alérgico.

Informação


Coordenado pelo médico Marcello Bossois, o Brasil sem Alergia é um projeto social que oferece gratuitamente a realização de diversos procedimentos de combate, controle e prevenção dos mais variados tipos de processos alérgicos e doenças ligadas ao sistema imunológico. Além do acompanhamento médico, a ação social oferece testes alérgicos gratuitos, além de imunoterapia com baixo custo. Criado em 2007, já atendeu mais de 60 mil pessoas em seus postos, no estado do Rio de Janeiro.

 (Ilustração / VALF)
PROBLEMAS MAIS COMUNS

 

ALERGIAS RESPIRATÓRIAS


Os ácaros domésticos são a principal causa de alergias do aparelho respiratório, sobretudo no outono e inverno. Para afastá-los, evite poeira, mantenha lençóis e toalhas de banho limpos e use pano úmido na casa. O polén das flores, na primavera, é um forte alérgeno.


  • Asma


Pode surgir em qualquer idade, mas é mais frequente na infância. O diagnóstico é feito por meio da história clínica pessoal e familiar. Exames laboratoriais, testes cutâneos e provas funcionais respiratórias também são aplicados.

Sintomas: crises recorrentes de falta de ar e tosse de forma repentina, depois de constipações, exercícios ou episódios de estresse.

Tratamento: para controlar a asma são usados broncodilatadores, que melhoram o fluxo de ar nas vias respiratórias, e anti-inflamatórios.


  • Rinite, sinusite e conjuntivite alérgica

A rinite é a alergia mais frequente. É comum em crianças e pouco diagnosticada. Está associada à sinusite e à conjuntivite alérgica. Pode ser feito exame do interior do nariz, procurando alterações típicas, como a mucosa pálida, e também aplicados testes cutâneos e análises de sangue para verificar o nível de anticorpos específicos.

Sintomas: na rinite, obstrução nasal, comichão, espirros e secreção no nariz, perturbações do sono e fadiga. Na sinusite, há inflamação da mucosa nasal, que condiciona a drenagem do muco. Na conjuntivite, os olhos ficam vermelhos, lacrimejantes, inchados.

Tratamento: quando a rinite e a sinusite são intermitentes, recorre-se a um anti-histamínico, que alivia os sintomas. Formas persistentes são tratadas com corticoides nasais e anti-histamínicos orais ou nasais. As vacinas reduzem a reatividade dos brônquios. A conjuntivite é tratada com anti-histamínicos orais e colírios. Durante sua ocorrência, lentes de contato não devem ser usadas.

 (Ilustração / VALF)
ALERGIAS ALIMENTARES


São comuns e podem levar a morte. Podem ser provocadas por alimentos processados e seus aditivos. É muito confundida com intolerância alimentar. Um exame de sangue indica a presença de anticorpos e, por vezes, o teste cutâneo é útil. Alimentos que mais causam alergias: ovos, amendoim, nozes, chocolate, castanhas, kiwi e frutos do mar.

Sintomas:
os mais ligeiros limitam-se a erupções cutâneas, urticária (edema dos lábios e da garganta), falta de ar, náuseas e diarreia. Nos casos mais graves reação anafiláctica, em que a inflamação da garganta é tão grande que impede a respiração, podendo causar desmaios e levar a edema de glote. Nem sempre a reação ocorre pela ingestão de alimentos: a simples inalação é suficiente para gerar a reação.

Tratamento: nas crises agudas, são indicados medicamentos orais. Existem também kits de adrenalina de emergência para combater choques anafiláticos. A pessoa que sabe que é alérgica a determinado alimento deve ficar atenta para não entrar em contato com ele.

 (Ilustração / VALF)
ALERGIAS CUTÂNEAS


Geralmente provocada ou agravada por alérgenos, sobretudo ácaros, mas também pólen, leite de vaca, ovo e frutos secos. Análises do sangue detectam anticorpos específicos e os testes cutâneos e de contato tentam identificá-los. Em crianças, surgem como prurido na face e pele seca nas dobras do corpo; em adultos, como manchas vermelhas, que podem desaparecer ao fim de dias ou durar anos (crônicas).

 

  • Eczema de contato

Mais frequente em adultos, o eczema aparece claramente depois que a pessoa teve contato com alérgenos, como metais, como o níquel, e os componentes químicos de fragrâncias, cremes ou tintas.

Sintomas: as reações a essas substâncias não são muito diferentes do eczema atópico. A inflamação surge entre 48 e 72 horas depois, bem como o prurido, vermelhidão na zona afetada.

Tratamento: evitar o contato com o que provoca a alergia e usar medicamentos orais ou pomadas, indicados pelo médico.

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