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Nem tudo vale a pena por um bumbum grande

O metacrilato é liberado pela Anvisa e atrai mulheres que querem uma solução rápida para aumentar o bumbum. As consequências podem ser irreversíveis e casos de complicações têm aparecido cada vez mais. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica recomenda a prótese de silicone ou a gordura do próprio corpo para a brasileira que quer fazer jus à fama de avantajada

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Valéria Mendes - Saúde Plena Publicação:11/09/2013 09:00Atualização:12/09/2013 11:41
As candidatas ao Miss Bumbum passam por vários testes para garantir que é tudo natural. Em busca dessa estética, muitas mulheres não avaliam riscos e passam por procedimentos não reconhecidos pelo Conselho Federal de Medicina e Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (Divulgação/Miss Bumbum)
As candidatas ao Miss Bumbum passam por vários testes para garantir que é tudo natural. Em busca dessa estética, muitas mulheres não avaliam riscos e passam por procedimentos não reconhecidos pelo Conselho Federal de Medicina e Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica
Quinze venezuelanas morreram após injetar biopolímeros sintéticos no bumbum (clique e leia a matéria). Uma brasileira de 29 anos caiu no golpe de uma falsa médica. A jovem aplicou acrílico para aumentar o glúteo, teve uma reação 20 dias após o procedimento e precisou ser internada. Vânia Prisco precisou se submeter a uma série de procedimentos cirúrgicos na tentativa de reverter o quadro. A substância é absorvida pelo organismo e nunca mais poderá ser retirada. Esse produto é liberado para uso no Brasil pela Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A apresentadora Ana Maria Braga aumentou o tamanho de seu bumbum. A modelo Valeska Popozuda também. Para substituir a irmã no grupo de funk Gaiola das Popozudas, Gessica Santos seguiu o exemplo familiar e passou pelo procedimento. Gracyanne Barbosa nega, mas o aumento do volume das nádegas da esposa do cantor Belo foi registrado no último carnaval pelas lentes de fotógrafos de celebridades.

O cirurgião plástico Vinícius Melgaço explica que o metacrilato foi liberado no Brasil para uso em cirurgias ortopédicas e para uso estético em pacientes HIV positivos (Arquivo Pessoal)
O cirurgião plástico Vinícius Melgaço explica que o metacrilato foi liberado no Brasil para uso em cirurgias ortopédicas e para uso estético em pacientes HIV positivos
Qual a diferença entre o final dessas histórias?

A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e o Conselho Federal de Medicina (CFM) recomendam duas opções para a mulher ou homem que deseje um bumbum maior: o implante de silicone, tecnicamente chamado de gluteoplastia com prótese; e a gordura do próprio corpo ou gluteoplastia com lifting. Esse tipo de cirurgia ainda é pouco procurada no Brasil, mas vem aumentando principalmente entre mulheres de 25 e 35 anos. Os últimos dados da SBCP, compilados em 2011, informam que 2,58% das cirurgias plásticas realizadas no país correspondem aos dois procedimentos. Para servir de comparação, a lipoaspiração ocupa a primeira posição, com 23,32% e o silicone nos seios vem em seguida com 16,45%.

O errado
De mãos dadas com essa tendência, cresce também o interesse pela alternativa não reconhecida nem pelo CFM ou pela SBCP, a injeção de metacrilato. Mas isso não significa que o procedimento seja proibido. E aí está a raiz do problema. O cirurgião plástico Vinícius Melgaço explica que o produto foi liberado no Brasil para uso em cirurgias ortopédicas, especificamente para colar osso, e para uso estético em pacientes HIV positivos. Por causa dos retrovirais, esses pacientes apresentavam uma atrofia na face e o metacrilato ajudava a minimizar as consequências do tratamento.

Para agravar o cenário, esse procedimento é simples, rápido, não necessita de cirurgia e consequentemente não precisa de pós-operatório. Ele é realizado por médicos da Sociedade de Medicina Estética, também não reconhecida pelo CFM. “Esses profissionais disseminaram como uma coisa boa, mas não passa de uma versão moderna do silicone industrial. É uma loteria e as consequências são irreversíveis. Entre elas, infecção e necrose da pele”, explica Melgaço. O especialista diz que não tem como prever o resultado, se o produto vai ficar na região onde ele foi injetado ou vai migrar para outras partes do corpo, mas as mulheres têm a falsa impressão que o mais simples é melhor. “A substância não está dentro de cápsula nenhuma, é muito difícil retirá-la e ela pode lesar estrutura nobres do organismo”, observa.

'Meu marido gostou, mas não olho para esse lado, eu olho a minha vontade' - Léia Franezi tem 45 anos e colocou silicone no bumbum  (Arquivo Pessoal)
"Meu marido gostou, mas não olho para esse lado, eu olho a minha vontade" - Léia Franezi tem 45 anos e colocou silicone no bumbum
Autoestima é questão de saúde
Léia Franezi tem 45 anos, é monitora de escola e adepta do silicone: ela colocou prótese nos seios e no bumbum. Também já fez uma lipoaspiração na barriga. Casada, dois filhos, um de 24 e outro de 19 anos, dispara: “Meu marido gostou, mas não olho para esse lado, eu olho a minha vontade”. Sobre a cirurgia, enumera benefícios. “A autoestima muda. Eu me sinto bem melhor. Até mais cantada a gente recebe!”, brinca. Mas e o ciúme, Léia, como fica? A relação com os três homens de sua vida parece ser bem resolvida. “Ninguém tem ciúme, eles me dão a maior força. Meu marido costuma dizer que o homem que não apoia a esposa é porque não gosta dela e deve ter outra lá fora.”, alfineta.

A gluteoplastia foi feita há um ano e a monitora de escola diz que a recuperação não foi tão ruim. “Eu sentia cãibras nas pernas, mas é tranquilo. É difícil ter rejeição à prótese”, encoraja. Há três meses fez a cirurgia nos seios e abdômen. Ela não tenta esconder os “reparos” ao corpo e diz que as pessoas percebem e perguntam. Léia conta que foi à clínica do cirurgião plástico na semana passada e que na sala de espera tinham três mulheres que estavam lá para tirar os pontos dos seios. “Depois de verem meu bumbum, marcaram a cirurgia para daqui três meses”, diz.

Léia conta que as roupas também mudaram. “Antes, eu colocava uma calça justa e tinha que ficar puxando para cima”, explica. Ela quer garantir a boa forma e pratica em casa bicicleta, além de ser adepta das caminhadas. “Ano que vem vou fazer academia”, planeja. E encerra: “até para arrumar emprego ficou mais fácil”.

Entenda a gluteoplastia
A existência da prótese específica para o bumbum é recente. Essa técnica é mais procurada por aquelas que querem um aumento considerável dos glúteos. Vinícius Melgaço explica que é realizado um corte no meio do glúteo máximo onde a prótese é inserida. Esse músculo, segundo o cirurgião plástico, é muito resistente, e por isso o pós-operatório é dolorido. “É recomendado um repouso relativo de 15 a 30 dias e que a paciente alterne a posição”, explica. Também são indicados a drenagem linfática para diminuir o inchaço e o roxo na região, o uso de cinta, analgésico em caso de dor e evitar a exposição solar por 90 dias.

A prótese de silicone é opção para as mulheres que querem um volume grande nas nádegas (ARTE: SORAIA PIVA)
A prótese de silicone é opção para as mulheres que querem um volume grande nas nádegas


As proposições servem também para quem opta pela gluteoplastia com lifting. Nesse caso, o aumento das nádegas se dá com a gordura do próprio corpo. Ou seja, a mulher pode reduzir a medida nas costas, por exemplo, e transferir esse extra para o bumbum. “De 30% a 50% dessa gordura é reabsorvida pelo organismo”, observa Melgaço. Em ambos os casos a cicatriz que fica é praticamente imperceptível.

Em média, o preço da gluteoplastia é R$ 15 mil e em qualquer uma das opções a cirurgia tem duração aproximada de três horas. A anestesia varia de peridural ou geral, de acordo com indicação do especialista. “Os benefícios são maiores que os riscos de cirurgias como essas. A saúde emocional melhora como um todo. A mulher fica feliz com sua imagem”, afirma o médico.

Em média, o preço da gluteoplastia é R$ 15 mil (ARTE: SORAIA PIVA)
Em média, o preço da gluteoplastia é R$ 15 mil


O cirurgião plástico dá uma última recomendação para quem pensa em passar pelo procedimento: “se não for fazer em hospital, é preciso observar se a clínica oferece suporte como ambulância com UTI para caso de necessidade”.

O médico venezuelano Daniel Slobodianik mostra imagem de uma mulher que injetou biopolímeros sintéticos  nas nádegas e vai passar por diversas cirurgias para tentar retirar a substância (Leo Ramirez/AFP)
O médico venezuelano Daniel Slobodianik mostra imagem de uma mulher que injetou biopolímeros sintéticos nas nádegas e vai passar por diversas cirurgias para tentar retirar a substância
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