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29/JUN/2016

SÍNDROME DA VISÃO DE COMPUTADOR »

Especialistas alertam sobre o perigo de passar horas de frente para as telas do computador, smartphone e tablet

Além de causar irritação e ardor, pode levar a dor de cabeça, mal-estar e pouca produção de lágrima

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Celina Aquino Publicação:01/12/2013 07:21Atualização:01/12/2013 07:33
Problema atinge 75% de pesquisados (EM/D.A Press)
Problema atinge 75% de pesquisados
  É assim na vida moderna. Milhões de pessoas no mundo passam o dia inteiro trabalhando em frente ao computador. O smartphone é usado para trocar mensagens, consultar e-mails e acessar a internet. Em casa, dedicamos um bom tempo à televisão e o tablet ainda serve para ler um livro. Já parou para calcular quantas horas você passa de frente para uma tela? O hábito aparentemente inofensivo pode se tornar um inimigo da saúde ocular. Os olhos precisam trabalhar em dobro, enquanto o número de piscadas diminui, levando ao que se chama síndrome da visão de computador (CVS, sigla em inglês). Irritação, ardência e vermelhidão nos olhos, além de sonolência, dor de cabeça, mal-estar e cansaço, estão entre os sintomas do problema, comum em uma sociedade tecnológica.

Ao permanecer horas seguidas em frente a uma tela, é comum esquecer um ato involuntário fundamental para a saúde ocular. "Piscar é necessário para renovar a lágrima, que tem duas funções básicas: proteção e lubrificação. Ela contém substâncias antibacterianas que defendem os olhos de agressão externa e age para umedecê-los, protegendo a córnea", explica o oftalmologista Elisabeto Ribeiro Gonçalves, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Oftalmologia em Minas Gerais e chefe do Departamento de Retina e Vítreo do Instituto de Olhos de Belo Horizonte. O certo é piscar em torno de 16 vezes por minuto, mas, quando a atenção está focada na tela, o número pode ser quatro vezes menor. Com a redução da quantidade de lágrima, o líquido evapora mais rapidamente e os olhos começam a ficar ressecados, causando o desconforto característico da CVS.

O assistente da Clínica de Olhos da Santa Casa de Belo Horizonte e integrante da equipe do Instituto de Olhos Pampulha Wilton Feitosa Araújo acrescenta que o uso intensivo do computador expõe os olhos aos raios ultravioleta. Assim como a diminuição das piscadas, um dos principais efeitos da radiação, mesmo que seja mínima, é uma baixa na produção e no fluxo de lágrima. "Quando passamos algumas horas em frente a uma tela que emite qualquer grau de radiação, surgem pequenas lesões na conjuntiva, membrana que recobra o olho, e na córnea. Ao fim do dia, elas provocam sintomas como dor de cabeça, olho vermelho e tontura", esclarece o oftalmologista. Por sorte, a conjuntiva e a córnea são estruturas que se recuperam com facilidade. Araújo destaca que, só de passar a noite com os olhos fechados, o retorno da lágrima facilita a multiplicação das células e a regeneração dos tecidos.

O ar-condicionado colabora para o surgimento de sintomas comuns entre pacientes com CVS. Geralmente, quem trabalha o dia inteiro diante de um computador está em um ambiente climatizado pelo equipamento, que rouba o fluido corporal, inclusive a lágrima, deixando os olhos ainda mais secos. Profissionais que usam lente de contato tendem a ficar mais sensíveis diante do uso prolongado com uma tela, pois a presença de um corpo estranho nos olhos exige uma maior lubrificação. De acordo com o oftalmologista da Santa Casa, pacientes com doenças reumatológicas como artrite reumatoide e diabéticos tendem a apresentar diminuição de lágrima, por isso estão mais predispostos a sentir incômodo diante de uma tela. Devido ao uso de medicamentos controlados, que deixam o olho seco, hipertensos e pessoas em tratamento para depressão engrossam a lista.

 (EM/D.A Press)


Problema atinge 75% de pesquisados
Em 1999, o oftalmologista paulista Leôncio Queiroz Neto começou a estudar os efeitos da tecnologia na saúde ocular. "Observamos no consultório uma crescente queixa relacionada ao uso do computador", comenta. A confirmação de que o problema é comum veio com o resultado de uma pesquisa realizada há três anos no Instituto Penido Burnier, em Campinas (SP), com 1,2 mil pacientes (entre crianças, adolescentes e adultos) que usam o computador de 12 a 14 horas por dia. Dor de cabeça, olho seco e visão cansada são sintomas relatados por 900 deles, o que representa 75% da amostra. Da mesma maneira que o corpo dói depois de uma maratona, Neto informa que o uso intensivo de computador causa fadiga ocular. Isso porque os olhos precisam trabalhar milhares de vezes para focalizar e desfocalizar as imagens na tela.

Entre os participantes da pesquisa diagnosticados com CVS, 320 são crianças. Como usam excessivamente computador, videogame ou tablet, 30% delas apresentaram miopia transitória. O problema de visão é caracterizado pela dificuldade para enxergar de longe, provocada pela visão embaçada, que pode durar pouco tempo ou se tornar permanente caso os hábitos não sejam modificados. "Vemos bebês usando tablet no carrinho. As crianças precisam usar aparelhos tecnológicos comedidamente", opina Neto. Há estudos em diferentes países, entre eles Japão e Inglaterra, tentando mostrar que a longo prazo o uso precoce do computador pode aumentar o número de míopes no mundo.

Os sintomas da CVS costumam aparecer depois de duas horas seguidas de frente para uma tela. "Os computadores deveriam tocar uma campainha a cada 40 minutos lembrando as pessoas de piscar", brinca o pesquisador do Instituto Penido Burnier.

Já o oftalmologista Wilton Feitosa Araújo orienta os pacientes a fazer uma pausa a cada hora de trabalho para estimular a lubrificação dos olhos. Há casos em que são indicados colírios com ação lubrificante chamados de lágrimas artificiais. O especialista também sugere instalar um protetor de tela no computador para filtrar a radiação ultravioleta e investir em uma alimentação rica em fibras e ômega-3 para reforçar a produção de lipídeos, substâncias que formam a camada externa da lágrima, também composta de proteína e água. “Quando há disfunção lacrimal, ocorre uma ruptura na camada mais externa e o líquido evapora. Comendo peixes e farináceos como aveia, granola e linhaça, por exemplo, a lágrima não vai evaporar com tanta facilidade”, ressalta.

Máquina inocente Para Elisabeto Gonçalves, é lenda a relação do computador com problemas de visão. “Isso é mito. Nunca desestimulei os pacientes a ficar de frente para o computador. Pode usar à vontade, desde que não se esqueça de piscar”, diz.

Antes de culpar o computador, o médico alerta que é preciso investigar se algum problema ocular está causando a sintomatologia. Irritação dos olhos, conjuntivite, blefarite, que é a inflamação das pálpebras, insuficiência lacrimal, problemas de motilidade ocular, provocados pelo mau funcionamento da musculatura, dificultando a acomodação visual (mecanismo relacionado ao foco das imagens), podem provocar os mesmos sintomas da CVS.



Jeffrey Anshel, oftalmologista da clínica Corporate Vision Consulting, nOS EUA, onde pacientes aprendem a usar o computador sem forçar os olhos

1 - Por que a síndrome da visão de computador (CVS) é comum hoje?

Nossos olhos não são desenhados para manter o foco em imagens próximas por horas a fio, de modo que isso pode forçá-los.

2 - O que o senhor sugere para reduzir os riscos da CVS?
Recomendo o “3-B” (em inglês): piscar, respirar e parar. As pessoas devem piscar constantemente para manter os olhos lubrificados; e a respiração deve ser constante e uniforme. Também é importante fazer pausas para permitir que os olhos relaxem. A maneira mais fácil de se lembrar das paradas é seguir a “20-20-20 rule” (em inglês): parar 20 segundos, a cada 20 minutos, e manter uma distância de seis metros da tela.

3 - Como a ciência está lidando com a CVS?
Realmente não há muito o que fazer para lidar com esses problemas, exceto fabricar telas de melhor qualidade (mais próximas da visualização de uma folha de papel). Há uma empresa que está fazendo óculos específicos para usuários de computador, mas o maior problema é que estamos usando a máquina para tudo. Precisamos fazer pausas!



 (Rodrigo Clemente/EM/D.A press)
Adriano simões coelho, 43 anos, psiquiatra

Uso deve ser equilibrado
“Sempre fui um usuário básico de computador, usando PC ou notebook para preparar aulas e apresentações. Depois do iPhone e do iPad, não ligo mais computador. Tudo que faço é no tablet. Não sou viciado, tampouco jogo, mas leio jornais diariamente no iPad, baixo revistas estrangeiras, artigos científicos. Recentemente, baixei livros, pela facilidadade de leitura. Como tenho pouco tempo disponível, por causa do trabalho e da família, leio no tablet antes de dormir. E é ótimo. Assisto a séries também. Nos últimos anos, toda a minha agenda, e-mail, transações bancárias, acesso a mapas em viagens faço com o tablet e o iphone. Nunca senti nada em relação à saúde, como dor de cabeça, nos olhos ou muscular, pela postura. Acho que o uso da tecnologia é saudável, desde que seja equilibrado. Considero mórbido o excesso de exposição pessoal, como nas redes sociais, uma doença contemporânea, e ainda o excesso de tecnologia para crianças. Sem exageros, ela é saudável”.

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