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Pressionado por campanha, Facebook muda política em relação a fotos de amamentação

Rede social confirmou mudanças após mobilização de usuárias que incentivam amamentação e promovem uma nova visão sobre o corpo da mulher

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Letícia Orlandi - Saúde Plena Publicação:17/06/2014 11:50Atualização:17/06/2014 14:56
Paala Secor é uma mãe engajada em campanhas para mudar a visão sobre a exposição do corpo feminino e a hiperssexualização das mamas na sociedade ocidental (Reprodução / Facebook / doublethink.us.com/paala/)
Paala Secor é uma mãe engajada em campanhas para mudar a visão sobre a exposição do corpo feminino e a hiperssexualização das mamas na sociedade ocidental
No último mês de março, o Saúde Plena trouxe a matéria 'Mãe é chamada de vagabunda por amamentar o filho em público. E você, se sente incomodado(a) com esse direito básico?', com depoimentos de mulheres que passaram por constrangimentos e assédio durante a amamentação. De lá para cá, a mobilização materna em torno de uma nova visão em relação ao corpo feminino só cresceu, tanto no Brasil quanto em outros países. Na última semana, a blogueira norte-americana Paala Secor deu o 'golpe de misericórdia' na política de privacidade do Facebook, que até recentemente retirava sumariamente fotos em que havia exposição de mamilos.

Depois que a rede social anunciou uma revisão nas regras, Paala publicou uma foto em que amamenta uma das filhas e deixa o outro mamilo exposto. Na legenda, a mãe de três crianças usou a hashtag #FreeTheNipple (liberte o mamilo, em tradução livre) e provoca: 'vocês dizem que agora não vão mais retirar fotos das mães que aparecem amamentando e expõem os mamilos, então eu desafio: mantenham essa imagem e vamos ver a repercussão”. A foto teve mais de 7.600 curtidas e 2.300 compartilhamentos.

O detalhe é que ela chegou a ser retirada no dia seguinte à postagem. A blogueira recebeu um aviso de que sua conta poderia ser deletada. Mas a imagem retornou rapidamente, sem a necessidade da intervenção de Paala, e com um pedido de desculpas. "Esperamos que esta nova política ajude a reduzir o estigma relacionado às imagens de amamentação", disse a blogueira em entrevista ao The Independent.

Na enquete realizada pelo Saúde Plena, a pergunta "A amamentação em público deve ser restrita?” recebeu 111 respostas, sendo 91 (81%) para o "não, é um ato natural. A amamentação exclusiva é recomendada até os seis meses do bebê e a mãe tem o direito de ir e vir". Foram 14 votos (12%) para o "sim. Custa cobrir o seio com um paninho?". E 6 (5%) leitores escolheram "sim. Lugar público não é adequado para amamentação, tanto pelo bem estar da criança quanto pela exposição da mulher".

Com esta foto, Paala provocou a rede social e suas novas regras. A imagem chegou a ser retirada temporariamente, mas foi 'devolvida' com um pedido de desculpas (Reprodução / Facebook / doublethink.us.com/paala/)
Com esta foto, Paala provocou a rede social e suas novas regras. A imagem chegou a ser retirada temporariamente, mas foi 'devolvida' com um pedido de desculpas
As regras oficiais de publicação do Facebook nunca proibiram explicitamente imagens de amamentação, mas elas eram retiradas pelos moderadores de conteúdo, após denúncias e rastreamento. Em seus novos padrões de comunidade, a rede social mantém a rigidez em relação a conteúdo pornográfico, mas faz uma exceção clara: 'conteúdo de importância pessoal, a exemplo de uma escultura, como o Davi de Michelangelo, ou ainda fotos familiares em que aparece a amamentação de uma criança'.

Os administradores reforçaram ainda que a denúncia não garante que o material será removido.”É possível que algo possa ser desagradável ou perturbador sem atender ao critério de remoção ou bloqueio. (...)A possibilidade de o usuário controlar o que é exibido na sua própria timeline também é uma forma eficiente de proteção”, lembrou o comunicado. A rede social já recebeu inúmeras críticas em relação aos critérios utilizados para bloqueio, como no caso de um vídeo em que uma mulher era morta e decapitada, supostamente no México, divulgado em 2013. Em princípio, o Facebook recusou-se a retirar as imagens, porque "embora o vídeo seja chocante, nossa postura está fundamentada na preservação dos direitos das pessoas de descrever, representar e comentar sobre o mundo em que vivem". O descontentamento foi tanto que até o primeiro ministro britânico David Cameron se pronunciou; e o conteúdo foi bloqueado.

A campanha #FreeTheNipple não se restringe à amamentação e inclui reivindicações como o direito de a mulher fazer topless e exibir os seios em contextos como o da Marcha das Vadias. As novas definições não citam esses exemplos e mantêm as expectativas de ativistas dos direitos da mulher e de profissionais que realizam a cobertura dos eventos. Dezenas de veículos de comunicação, a exemplo do próprio Portal Uai, tiveram imagens removidas e as páginas nas redes sociais temporariamente suspensas após a divulgação de registros fotojornalísticos da manifestação, cuja última edição foi realizada no Brasil no dia 24 de maio.

Leia também: a moda da selfie já foi longe demais?

Realidade compartilhada
A censura à exposição da mama durante a amamentação é uma realidade que une vários países ocidentais. Mães inglesas, brasileiras e norte-americanas têm histórias semelhantes. A própria Paala Secor recebeu, na foto em que desafia o Facebook, comentários contrários à sua postura. Algumas frases que aparecem nos comentários: “você tem que entender que nem todos são obrigados a ver isso” e “essa é uma maneira ridícula de provar um ponto. A amamentação é um momento de intimidade e não deve ser compartilhada com o mundo”.

O registro do fotojornalista dos Diários Associados Gladyston Rodrigues, feito na última Marcha das Vadias de Belo Horizonte: imagem foi retirada pelo Facebook e página foi temporariamente suspensa (Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
O registro do fotojornalista dos Diários Associados Gladyston Rodrigues, feito na última Marcha das Vadias de Belo Horizonte: imagem foi retirada pelo Facebook e página foi temporariamente suspensa
Esse argumento da intimidade aparece também na forma de propostas de 'locais reservados para amamentação'. Uma campanha iniciada por estudantes da Universidade do Texas (EUA) critica a 'necessidade' de a mulher se esconder para amamentar. 'Mesa para dois', 'Jantar particular' e 'Bom apetite' são as legendas que aparecem nas fotos de mães alimentando os filhos em cabines de banheiros públicos (veja abaixo).

Apesar de existirem leis em 45 estados norte-americanos para garantir o direito de amamentar em público, ainda não há meios para que a mulher processe a instituição ou pessoa que assediar ou constranger.

Karlesha Thurman, estudante e mãe de 25 anos, sabe bem o que é isso. Ela postou uma foto em que amamenta a filha durante a cerimônia de formatura na California State University, foi xingada e hostilizada. Os comentários saíram das redes sociais e foram feitos por âncoras de TV e celebridades. “Não, eu não quero ver isso, nem na Starbucks (cafeteria) ou em qualquer outro local público”, disse a comediante Wendy Williams, que já posou nua para apoiar a causa da organização de defesa dos animais PETA. As declarações motivaram uma série de 'mamaços' em várias cidades americanas, para apoiar Karlesha e exigir retratação. Clique aqui para saber mais e entender como está a discussão no Brasil.

Campanha criada por estudantes da Universidade do Texas critica a visão de que a mulher deve se 'esconder' para amamentar (Divulgação)
Campanha criada por estudantes da Universidade do Texas critica a visão de que a mulher deve se 'esconder' para amamentar

    • 31/03/2014
    • Amamentação em público
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