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Marcas da maternidade podem ser motivo de orgulho

Dar à luz uma criança é também um processo de transformação de uma mulher, cujo corpo carregará a lembrança do parto

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Revista do CB - Correio Braziliense Publicação:19/11/2014 09:30Atualização:17/11/2014 11:25
A gestação costuma ser um período de grande oscilação de humor entre as mulheres. Os sentimentos contraditórios são desencadeados pela flutuação dos hormônios, mas também pelas transformações no corpo — um desafio à autoestima feminina. A parte hormonal desse fenômeno é bem conhecida pela ciência. “Tanto o estrógeno quanto a progesterona afetam o sistema nervoso central. Ambos são alterados durante a gravidez e caem bruscamente no pós-parto”, explica a psicóloga Josiane Monteiro.

Já o aspecto físico tende a ser subestimado, embora seja igualmente importante. “Eu inchei muito na primeira gravidez, e as pessoas comentavam bastante. Tinha vergonha até de sair. Eu chorava todos os dias”, relata a operadora de teleatendimento Camila Nery, 28 anos, mãe de Luiza, 8 anos, e Gustavo, 3. A segunda gravidez foi mais tranquila. Ela conta que se cuidou mais e não engordou tanto. Mesmo assim, confessa: “Eu ainda não me sinto bonita”.

Vaidosa, a operadora de teleatendimento havia colocado silicone nos seios apenas seis meses antes de engravidar. “Ainda bem que, mesmo depois de tudo, a prótese continuou no lugar e não atrapalhou em nada a amamentação”, comemora. “Eu não acho bonito mulher grávida, mas acho lindo o fato de cuidar dos meus filhos”, explica.

A autônoma Danúbia Amorim, 29 anos, tem um filho de 5 anos e está no quinto mês da segunda gestação. Ela conta que, durante a primeira, ganhou 20kg. Mesmo depois de emagrecer, afirma que não gostou da nova aparência. “Dá impressão de que você está uma magra um pouco acabada. Para emagrecer, nem fiz muito esforço. Perdi peso amamentando por dois anos”, exagera. Na verdade, ela também mudou hábitos alimentares. E nunca desleixou com a aparência. “Procurava estar sempre com os cabelos e as unhas arrumados.”
Camila Nery, 28 anos, com a filha, Luiza. Para ela, lidar com as mudanças não foi fácil (Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
Camila Nery, 28 anos, com a filha, Luiza. Para ela, lidar com as mudanças não foi fácil

Na segunda gravidez, Danúbia está mais confiante. “Eu me sinto mais madura, não me preocupo com a barriga crescendo. Cuido da alimentação e nada me impede de aproveitar a alegria de ser mãe”, conta. A atitude do marido também é muito positiva. “Ele sempre foi atencioso, liga o tempo todo, passa óleo na minha barriga e conversa com o bebê. Nunca deixou que eu me sentisse feia, sempre me apoiou muito”, reconhece.

Durante ou logo após a gravidez, a maior queixa das mulheres é em relação ao sobrepeso. “As mamas crescem muito e podem aparecer estrias nos seios, no abdômen e nas coxas. Muitas relatam manchas na pele, acne no rosto e aumento da oleosidade do cabelo, principalmente depois do segundo trimestre” afirma a ginecologista e obstetra Adriana Cocinell.

As estrias acabam sendo a marca mais aparente — e também a mais simbólica — da nova fase de vida. “Elas ocorrem devido à sobredistensão da pele. No caso das mamas, porque o volume aumenta muito rapidamente. Então, a pele estica e ocorrem as rachaduras” explica Adriana.

Há outras alterações capazes de minar a autoestima da grávida. “Os mamilos ficam mais escuros, podem surgir manchas na pele, as unhas ficam fracas. Em contrapartida, os cabelos ficam mais sedosos e bonitos”, afirma o dermatologista Gilvan Alves.

Segundo o médico, a estria depende do histórico familiar e a única solução para amenizá-la é hidratar bem a pele. “A estria é geneticamente determinada e depende muito da elasticidade. A pele bem hidratada tem melhor elasticidade e não fica tão marcada”, explica. Essas marcas são genéticas e, em geral, não saem. No máximo, podem ser amenizadas. “Não existe creme específico que previna ou cure estrias”, reforça.

Mães adolescentes são mais suscetíveis a ter estrias. Uma alimentação rica em proteína e colágeno contribui para uma pele saudável e, consequentemente, mais elástica. Além disso, recomenda-se a ingestão de frutas, legumes e determinados suplementos, como a ácido fólico, a vitamina A, o ferro e o cálcio. Excesso de massas (carboidrato) e doces (açúcar) nunca é bom.

O que dizem sobre acne em gestantes é verdade: ela se acentua ao longo dos nove meses. Isso ocorre devido à ação de hormônios, como a progesterona. A pele da grávida fica mais oleosa e porosa. Higienize-se bem, mas nunca passe produtos sem orientação de um dermatologista, pois muitas substâncias causam má-formação fetal.

Relatos de amor próprio

Das mudanças no corpo causadas pela gravidez, as estrias são as mais incômodas para algumas mulheres. Para questionar essa aversão, duas mães americanas criaram o perfil loveyourlines na rede social Instagram. As postagens começaram em agosto passado e já somam 84 mil seguidores. Elas recebem e divulgam fotos com depoimentos, sempre com o objetivo de celebrar “mulheres reais, corpos reais e verdadeiro amor próprio”.










Momentos íntimos
Os elos sociais da futura mamãe são um ponto importante. Geralmente, o apoio vem da família, mas as amizades ajudam. “Se a mãe tiver um repertório pobre de enfrentamento diante das dificuldades e falta de perspectiva em relação ao futuro, não só ela, mas qualquer pessoa pode se sentir desestimulada e com baixa autoestima”, avalia a psicóloga Josiane Monteiro.

Gianna Lucena, 39 anos: malhou durante as gestações e depois delas. E ainda fez novas amizades (Zuleika de Souza/CB/D. A Press)
Gianna Lucena, 39 anos: malhou durante as gestações e depois delas. E ainda fez novas amizades
Existem, é claro, mulheres que se sentem mais bonitas com o barrigão. A autoestima é influenciada pelo parceiro também. Ele deve elogiar e incentivar hábitos saudáveis. A nova mãe pode ter uma vida sexual normal durante a gravidez. Depende, primeiramente, de como é essa gestação. Se for uma gravidez normal, sem intercorrências, só há vantagens em manter a chama acesa.

As primeiras 12 semanas são vitais ao feto. O corpo humano está se formando. Se algo der errado, ocorre o aborto natural. Vale lembrar que há um período de nidação do feto no útero, caracterizado pelo aumento de progesterona, hormônio feminino que faz com que a gestante queira ficar o máximo de tempo quieta. Há enjoos e náuseas. São sintomas “inteligentes” desse hormônio: evita-se, assim, esforços desnecessários da mulher. Nada disso a impede de manter relações. “O fato de estar grávida não significa que a vida será somente para o filho. Ela tem que investir no momento a dois também”, aconselha a sexóloga e fisioterapeuta uroginecológica Viviane Poubel.

Gestantes avançadas se beneficiam igualmente da intimidade do casal. “Se a mulher deseja ter um parto normal, o ato pode ser até um estimulante ao nascimento do bebê.

A possibilidade de perda de desejo durante a gravidez depende de muitos fatores. No primeiro trimestre, ocorre um aumento da progesterona (inibidora). Logo em seguida, há aumento de outro hormônio, o estrogênio — este, sim, “afrodisíaco”. Mas o aspecto psicológico tende a pesar mais.

Após o parto natural, o mais correto é esperar 30 dias para ter uma vida sexual rotineira novamente. Com a cesárea, o ideal é esperar 45 dias. Logicamente, cada mulher vive seu período de readaptação. Viviane Poubel aconselha: “Siga seus hormônios. Quanto mais relação e mais à vontade você estiver, mais rápido o corpo voltará ao normal e mais próximo o casal ficará”.

Em dia com o corpo

A consultora de vendas Gianna Lucena, 39 anos, tem dois filhos e praticou exercícios físicos até o penúltimo dia das gestações. Hoje, o caçula tem 5 meses e acompanha a mãe nos treinos. Esse tipo de programa de atividade física “mãe e bebê” já é realidade em muitas academias de Brasília. “São muitos os benefícios. Tem o controle de peso, de pressão arterial, a redução de endemias, e pode prevenir varizes e hemorroidas”, explica a profissional de educação física Ana Flávia Rangel, especialista em saúde perinatal e desenvolvimento do bebê.

Grávidas podem fazer natação, musculação, ioga, hidroginástica e alongamentos. Apesar de todos os benefícios para o corpo, a professora destaca que o maior ganho desse tipo de malhação é a troca de experiências entre as futuras mães. “Elas têm as mesmas dúvidas, aflições e sonhos. Os vínculos são fortalecidos e os assuntos são muito variados”, explica Ana Flávia.

Gianna concorda: “Quando temos um bebê, passamos muito tempo dentro de casa. Com essas atividades físicas que podemos levar a criança, voltei a sair e a socializar”. Ela também ressalta a importância da troca de conhecimentos. “Compartilhava muitas experiências com o grupo. Estamos todas no mesmo barco, há muita cumplicidade”, conta.

Os programas de malhação com bebê funcionam assim: começam logo nos primeiros meses de gestação e se prolongam até o quinto mês pós-parto. Depois disso, a própria criança já pode ser inserida em algum exercício. Todas as gestantes estão aptas a participar de atividades em grupo. Basta a liberação do médico.

Ser mãe é uma linda tarefa, que traz dificuldades e desafios. Um deles é para a própria imagem da mulher. Muitas admiram modelos grávidas que, poucos meses após o parto, estão de volta às passarelas e quase não exibem mudanças no corpo. Toda mãe, no entanto, é perfeita aos olhos dos filhos. Cada uma deve abraçar e exibir com orgulho cada detalhe adquirido com a dádiva de gerar uma vida.

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